sexta-feira, 11 de abril de 2014

Cinco minutos de fome


Aconteceu a sexta-feira passada. As luzes do Natal ainda cintilavam no caule das palmeiras. Jorrava água das fontes circundada de pedras e munida de pontes. Nas mesas, casais e famílias saboreavam petiscos. Entre uma garfada e outra, conversavam animadamente ao som de músicas ao vivo. A vocalista caprichava nos graves e agudos.

A queima de fogos ainda inundava a mente e o coração das pessoas, desejosas de um afortunado porvir. Feliz ano novo era o que mais se ouvia e dizia. Era o primeiro final de semana de 2014. De repente, não mais que de repente, como diria o poeta, a música pára. Um homem, em alto e bom tom, inicia um discurso, roubando a cena. Anuncia (ou
denuncia?) que veio do interior em busca de atendimento médico para a mulher. Não conseguiu ante a precariedade da saúde pública. Como não tinha para onde ir, tampouco dinheiro para voltar, o jeito foi ele e a família se acomodarem num velho Fiat. Já haviam passado pela Praça do Ferreira e agora invadiam nossa praia. Ou melhor, nossa praça. Sua voz era firme. Sua história, comovente. Suas palavras, dilacerantes. Falava de fome e humilhação, a ponto de despertar a atenção (e a comiseração) de todos. Um ouvinte lhe doou cem reais, ao que o homem ajoelhou-se. Naquele gesto extremo, não sei se agradecia a Deus ou ao seu benfeitor. Ou a ambos. Outras notas lhe foram
repassadas. Mais não recolheu porque foi contido por seguranças do shopping. A cena não durou mais do que cinco minutos. Quanto a mim, hesitei em ajudar. Estava na dúvida. Falava o desconhecido a verdade ou seria ele um grande ator (ou aproveitador), a explorar a caridade pública? Hoje, já não me importa a resposta. Mas o fato de que a cena não tirou o brilho nem a beleza do lugar. Nem desqualificou o momento. Ao contrário, serviu para dizer que não há lugar para um homem destilar seu sofrimento nem hora para ajudar o semelhante. “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”, diz conhecida música. No episódio em comento, homens em situações diametralmente opostas. Uns vivendo momentos de descontração e lazer e outro, de tensão e angústia.
Uns saboreando a vida e outro dela se queixando. Sobretudo, um clamando (e chorando) por ajuda e outros se dispondo a prestá-la, incondicional e prontamente. Enfim, um fato digno de ser estudado pelos experts do comportamento humano. Afinal, seria o homem
o lobo do homem? Ou seria o homem o cordeiro do homem? Eis a eterna questão!
Concordo que há muitas maravilhas a serem admiradas (e estudadas) neste planeta. Isso é fato. Todavia, parafraseando Sófocles: “O mundo está cheio de maravilhas. Porém, nada é mais maravilhoso do que o homem”.


Cinco minutos de fome

Benedito Helder Afonso Ibiapina

Jornal O Povo

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